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Poeta-MANUEL MEDEIROS FRANCO
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Manuel Medeiros Franco

( O Poeta do Amor )

 

 

Manuel de Medeiros Franco foi também um poeta de rara sensibilidade, um intelectual, como poucos conterrâneos do seu tempo, que embora tenha passado rápida pela terra, marcou com as suas palavras, com os seus sentimentos, com a sua tragédia e com a sua biografia a galeria dos filhos ilustres não só da Achada, não só do concelho, mas da ilha de São Miguel e mesmo dos Açores.

            Medeiros Franco deixou para a posteridade dois manuscritos poéticos, os quais testemunham o que atrás se disse e que, passados 145 anos após a sua morte, ainda não foram publicados no seu todo, sendo apenas alguns excertos conhecidos, alguns dos quais ainda no século XIX e outros no século XX. As obras em questão são, O Casal Velho da Aldeia e Flores Novas.

O Casal Velho da Aldeia -  com data de 1859, é, por si só, uma mas mais belas flores da poesia deste arquipélago Açoriano. O Casal velho da Aldeia tem sabor peculiar dos nossos  montanheses e contém caracteres tão bem desenhados, que não hesitamos em considerar esta obra como a mais significativa e pessoal amostra do estro brilhante do poeta.

 

Aldonça

Ai, Jesus! Que sou tão velha,

Já não posso c´o a idade.

Lembro-me da mocidade,

Certa amiga me aconselha.

Esperta como uma abelha

Fui logo de pequenina.

Todos diziam – Menina,

Sois o mimo desta aldeia,

A vossa face encadeia,

Qual verde – gentil buina-.

 

Fui crescendo c´o idade,

Foi-me crescendo a beleza:

Porém a par da lindeza.

Crescia em mim a vaidade.

Ia meu pai à cidade

Uma semana outra não.

De cada vez um gibão

Por força havia trazer-me,

Quando não para conter-me

Sofria a morte e paixão.

 

 

 

Lourenço

Jesus! Senhor São Gonçalo,

Se permitis que assim seja,

Vou levar-vos à Igreja

A galinha mais o galo.

Ai! Que gosto, que regalo,

Vê-las c´os pés para a porta!

Mas ainda depois de morta

Há-de fazer entremezes;

Pois hei-de encontrá-la vezes

Sentada ao portão da horta.

 

Anda esta empalamada

A gemer por esses cantos,

E não quer Deus em seus Santos,

Que eu veja amortalhada!

Morre velha escomungada,

Vae pagar o que tens feito.

Que eu aposto em pé, direito,

Firmando no meu bordão,

Inda não troco por pão

Os amores do meu peito.

 

 

 

Flores Novas – datado entre os anos 1860 e 1863, pouco antes da sua morte súbita.

            Vejamos alguns aspectos sobre a vida e obra de Manuel Medeiros Franco.

            O Jornal Ribeira Grande, de 21 de Setembro de 1881, numa reportagem sobre o nome de Medeiros Franco diz o seguinte:

            “D´entre  os poetas contemporâneos, que o tufão da desventura nos arrebentou, ainda em flor, foi o padre Manuel Medeiros Franco, natural da Achada da ilha de são Miguel, um dos que mais se distinguiu e cujos pródomos lhe aguravam um lugar honroso no panteon das letras açorianas. Mas a árvore protectora mirrou-se, quando, vinham assomar-lhe os frutos e infelizmente, para o coleiro da nossa poesia, as flores que nos deu estão em eminente risco de se afundarem, no mar do olvido, se mão amiga não expuser ao ar da publicidade.

 (…) “O Encarcerado” e o “Hino Escalástico Micaelense (…) constituíam (…) o diploma, pelo qual tem conferido ao padre Franco o merecimento título de Poeta…” 

            Antes de ter sido ordenado pare, em 1859, Manuel de Medeiros Franco apaixonou-se por uma Jovem da Achada, de que desconhecemos o nome, e que o irá marcar toda a vida. É uma relação platónica, um amor de “Romeu e Julieta”, em que ambos se amam até à morte, de 1859 e 1864.

            A jovem procura o então padre recém ordenado, e quando estão juntos, ela morre de repente,  possivelmente de enfarte. Os inimigos políticos do padre Franco acusaram-no de a ter assassinado, o que levou o poeta a ser preso na cadeia da Ribeira Grande. No entanto, foi mais tarde provado em tribunal que era inocente.

            Vejamos alguns poemas que invocam esse amor, essa paixão, que Medeiros Franco escreveu em Flores Novas:

 

Eu amei uma donzela

Tão bele qual nunca vi

Perdi-a, fiquei sem ela

Perdi-a tudo perdi.

 

Não era humana figura

Era um anjo, um serafim

Em beleza, em formosura.

Ainda não vi assim.

 

Porém a morte daninha

Que tantas vida desfaz,

Sobre a pobre inocentinha

Caiu com dente voraz.

 

Vi cerrar seus olhos belos

Seu rosto empalidecer,

Seus finos louros cabelos

Vi em crespos envolver.

 

Vi enfim na campa fria

Seu corpo sepultar

E eu que então a perdia,

Foi minha vida chorar

 

            Enquanto estava preso escreveu vários poemas “O Encarcerado”, que fazem parte do referido manuscrito, Flores Novas, vejamos um pequeno trecho desse canto de 96 versos:

 

Feios sam meus pensamentos!

Mas ainda não esmor´ci.

Duros sam os meus tormentos!

Mas ainda não seccumbi.

 

Tive amigos, fui ditoso

Na vida sem o sentir!

Ganhei prestígio honroso

Doce esp´rança no provir!

 

Hoje, triste, desprezado

Ao alivio abandonado,

Trocaria de bom grado

A morte p´lo existir

 

Pois pai tenho que me adora…

Uma mãe… por  igualar.

Nove irmãos tenho lá fora

Que ainda mal sabem andar!...

Oh!... esses antes queridos.

 

 

            Medeiros Franco esteve preso na Ribeira Grande e depois da sua absolvição descreve o tempo decorrido na cadeia, num sermão na festa da Achada, a 11 de Setembro de 1862, que se encontra publicado nos Literatos dos Açores, de Urbano Mendonça Dias, nas páginas. 223-230.

“E sabeis vós senhores o que é estar preso’ Podeis vós fazer ideia do que é viver em prisão? Ah! Não sabeis e peça aos céus que nunca tenhais ocasião de o saber. O infeliz sem aventura a quem a desgraça  à morada do crime, é como a flor mimosa do estio a quem nos vendais do Outono roubam a gentileza, a qual não torna já a recuperar por mais bela que lhe venha a primavera futura. Oh! Não há dia, é noite, não há sol, tudo são sombras, não há prazer, tudo são pesares”.

            “O espírito inquieto não sabe nem pode reflectir; envolto como um turbilhão de ideias, exageradas, só pode discorrer com lógica absurda, furibunda e perversa; e ei-lo que resvala em estado anti – filosófico e anti-cristão.

            Mas se o homem consulta o coração e o acha convencido de que há um poder sobrenatural que tudo destina e sem cujo mando não pode cair a mais pequena folha duma açucena., então uma luz desconhecida vem, posto que confusamente, raiar no meio das trevas que lhe rodeiam o espírito, então a filosofia se lhe converte em religião e a razão lhe aconselha o sofrimento”.

                Nos anos de 1863 e 1864 o povo da Achada foi assombrado por uma das mais terríveis e dolorosas catástrofes da sua história – A epidemia do Toucinho que fez dezenas de mortes, deixando a população desta localidade de rastos e na miséria.

            O jornal A Persuasão, de 10 de Fevereiro de 1864, falando desta peste refere:

            “Em (…) Setembro último correu boato de que no mar fronteiro a este lugar boiava à tona de água um volume, não pequeno, que pouco a pouco se aproximava da praia. – È um baú de dinheiro, - diziam outros. – É uma barrica D´água ardente – diziam outros. E é ver como correm muitos ao calhau e qual o primeiro se havia senhorear da preza. Momentos depôs um caixão fazia-se em pedaços, batendo contra a penedia, e um cheiro pestilencial fazia retirar todos. Era toucinho corrupto, de mistura de sebo em rama.

            No dia seguinte sai de duas ou três casas um fumo enjôoso, que desafiava o vómito, e se que lhes soubesse adivinhar o motivo. Sabe-se que provinha de não pequena porção de toucinho da véspera que ali estavam a derreter…”.  

            Foi este “fumo enjôoso” que provocou a epedemia no povo da Achada atingindo famílias inteiras, não havendo quem delas cuidasse, nem para lhes dar comida.

            A morte do Padre Franco ocorreu a 17 de Março de 1864, no contexto da epidemia da Achada, tendo sido declarado a causa do falecimento o vírus que provocava febres altas e que levou também à morte de muitos outros conterrâneos. Contava apenas vinte e oito anos de idade.

            Segundo a D. Cristina de Medeiros Franco, octogenária nessa altura e sobrinha neta do Padre Franco, que relatou que seu tio havia sido assassinado, na casa da Achada, no quarto do rés-do-chão, que fica a nascente, junto do hall, com  um copo de bebida que continha veneno mortal. No entanto, para todos os efeitos, dizia-se que tinha falecido da epidemia e que este tinha sido um segredo mantido por muito tempo no seio da sua família.

            Hermínio Maria na Estrela Oriental, na folha Ribeira Grandense no nº. 16, de 11 de Abril de 1908, escreve o seguinte:

“… morrendo muito novo, após terrível provação nas cadeias da Ribeira Grande, por suposto crime de amores, que inimigos políticos inconsideradamente lhe atribuíram. Travador pouco divulgado, e nunca incluído pelo Sr. Francisco Maria Supico nos seus bosquejos de poesia micaelense, distinguiu-se no público, e, além de vários sermões ainda inéditos.”.  

            O percurso de vida do Padre Franco foi marcado pelo amor que ele cantou, que desejou, que sonhou e que partilhou com  sua amada. Era um amor impossível uma vez que ele era padre e , ao que parece, ele era casada. Ela morreu, ele sentiu essa perda, esse vazio, uma profunda tristeza.

            Ele de seguida foi preso, passou oito meses na cadeia, e por fim voltou à Achada, onde assistiu à morte de dezenas de pessoas, vítimas da epidemia e, por fim, morreu envenenado na casa onde tinha nascido.

            A história deste poeta do amor confunde-se com a história de “Romeu e de Julieta”, no amor e na tragédia.

            O seu nome fica indiscutivelmente ligado à poesia açoriana, na medida que muitos dos seus versos fazem parte de antologias poéticas e  de jornais.

            No dia 21 de Março de 1993, foi prestada uma justa homenagem a este poeta da Achada, tendo sido colocada uma placa na casa onde nasceu, viveu e morreu, seguindo-se um serão cultural no Salão da Casa do Povo da Achada.

            O Padre Manuel Medeiros Franco faz parte da Dinastia Poética dos Medeiros Franco, onde podemos também encontrar outros nomes, como: Luciano de Medeiros Franco, António Medeiros Franco e Júlio de Medeiros Franco.

            Hoje a poesia de Franco, ressoando na bruma da ilha, é devolvida à voz do povo e à terra que o inspirou e que o há-de lembrar com orgulho e admiração, como sendo um dos filhos mais ilustres desta comunidade. Fica a memória de quando a melodia dos seus versos elegrava, na sua presença, a alma sensível do ilhéu açoriano emergido da lava dos vulcões.

 

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